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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Flashback | 24 Horas


Por Rafael Pelvini

Exibida na Globo (tv aberta) de madrugada sob o título 24 Horas e na Fox (tv fechada) sob o título... 24 Horas, 24 vem de 2001 e bem correspondeu àqueles que queriam um super herói - ou melhor, um herói americano (e cá estou eu recomendando uma série do tipo - prometo só bons highlights neste flashback). Não à toa, o atentado terrorista que serve de estopim à primeira temporada série remete ao 11/11, e teve cenas editadas justamente por isso. O agente ligado ao atentado fictício trabalha na CTU, Unidade Contra Terrorismo, e atende pelo nome de Jack Bauer. Ao longo de 8 temporadas acompanharemos o quanto este homem desfaz toda sua família e sua vida através dos sacrifícios que fizeram-no errante. Em termos de missões e de como lidar com elas, Jack é definitivamente o McGyver hardcore do nosso século, um direto concorrente de Chuck Norris: já matou um homem com uma mordida no pescoço (sério), já foi torturado até a morte - e ressuscitou -, já se viciou em heroína, já arrancou a cabeça de criminoso e usou como isca... Ou seja: se fodeu muito, mas deu um jeito de acabar com os terroristas no final. 

"Events Occur in Real Time"

24 tem uma linha narrativa singular: cada um dos 24 episódios da temporada corresponde a uma hora, fechando um dia por ciclo. Fórmula obviamente esgotável - é um milagre que tenha durado oito anos - mas explorada à exaustão por roteiristas amantes de twists, ótimas cenas de ação e fantásticas traições. Evidente que um longo vácuo ficava entre um Dia e outro; exemplificando: há um ano e meio de intervalo entre o Dia 1 e o Dia 2 (primeira e segunda temporada), cabendo a nós preencher o que aconteceu com os personagens naquele meio tempo. Aliás, tempo é a palavra chave: um relógio periclitante surge o tempo todo e fecha os episódios sempre com um bom cliffhanger, daqueles chocantes (e absurdos, claro). Além disso, a sensação de urgência só cresce com um sistema de divisão de telas que mostra a mesma cena simultaneamente ou mostra o que personagens diferentes em lugares diferentes estão fazendo naquele momento - se é difícil entender lendo, imagina como é pra escrever, filmar, editar e produzir tudo isso.

As críticas, claro, ficam para o fato dos personagens não comerem não irem ao banheiro não cuidarem da higiene & não dormirem. Sim, 24 é uma série que precisa de licença poética para ser creditada - pense que cada episódio tem 43 minutos para mostrar uma hora, considere os intervalos como pausa dos personagens para o café e o xixi e, num cenário em que sua vida está em risco a cada cinco minutos, dormir é mesmo complicado.

O que eu acho? Que a primeira temporada é, sim, obrigatória para os fãs de séries em geral. Impecável do início até o fim - trilha sonora apropriada, edição nunca confusa, personagens com bom apelo e simpatizáveis (deixo o maniqueísmo pra depois) - esse Dia 1 tem uma das melhores reviravoltas de todas, que é entregue somente nos últimos segundos do penúltimo episódio - tornando, sim, o clímax todo para o season finale e deixando quem assiste com o gosto mais amargo do mundo, mas a certeza de ter acompanhado algo bem executado. Vingança é ou não um bom prato para se comer frio? 

É assistir pra ver.

Personagens

Jack Bauer, interpretado com louvor pelo mal comportado Kiefer Sutherland, já dispensa comentários - é o motriz da série, aparecendo e guiando todos os episódios -, então vamos àqueles que interessam. Coisa muito difícil, é claro, numa série que só tem um dia por temporada e intervalos de anos entre elas sofre de rotatividade de personagens. Não vou entregar o destino de ninguém ao longo da série - e acredite, tudo, tudo mesmo, pode acontecer com qualquer um deles. Como eu disse, até o próprio Jack já morreu uma vez. Risos.

Mas, como tudo gira em torno de Bauer, temos sua esposa e filha, Teri e Kim, como o lado mais humano de sua vida e que se metem em vários problemas, seja por burrice ou por mero parentesco com o azar. Kim Bauer, interpretada por Elisha Cuthbert, foi eleita (por mim, não se enganem) a personagem mais chata da série, sobretudo na twist do Dia 3 "papai-quero-trabalhar-com-você" e em seu tino para situações absurdas na segunda temporada. Outro que acaba se tornando família para Jack é o personagem do grandalhão David Palmer (Dennis Heybert): primeiro candidato negro à presidência dos EUA quando você nem sabia quem era Barack Obama. Palmer é praticamente o segundo protagonista da série (existe isso?), porque todas as cheiradíssimas tramas políticas correm em torno dele (vocês vão entender o termo "cheiradíssima" quando conhecerem sua esposa). O contraste com Palmer é perfeito quando a lembrança está em Charles Logan, político covarde muito bem interpretado por Gregory Itzin. Aliás, Logan tem uma esposa, Martha, a Louca (Jean Smart, "a louca" fica por minha conta), e os dois surgem apenas na quinta temporada - segurando a onda tão bem que ficam quase recorrentes nas temporadas seguintes.

Já os vilões da série - os terroristas - são assim: seres humanos unidimensionais dotados de ódio e sangue nos olhos que, com recursos e ideias mirabolantes, já não vale tanto a minha fala - a exceção mora nos grandes vilões da primeira temporada, a famíla Drazen, que contava com a sensata exatidão de Denis Hopper e a costumeira excelência de Željko Ivanek, que conferem maior realidade e complexidade e fazem você pensar: "é, poderia ter acontecido". É a contrapartida do modo criativo de se contar uma história inteira num dia só: não dá pra explorar personagens.

A não ser que eles durem mais tempo. na UCT, os agentes Nina Meyers (Sarah Clarke, linda e poderosa), Tony Almeida (Carlos Bernard, suspiros), Michelle Dessler (Reiko Aylesworth, simpática) e Chloe O'Brian (Mary Lynn Rajskub, que tomou o lugar de Dennis Hayber como segundo protagonista, se é que isso existe) são, das formas mais obtusas, amigos e inimigos de Jack. Tudo por conta do verdadeiro grande vilão de 24, o que atrapalha sempre os planos de Jack e bota as pessoas que confia para apunhalar suas costas:

A Burocracia

Jack não hesita. É impulsivo. Daqueles que acredita que os fins justificam os meios e que, sempre, tem o resultado esperado (mesmo que para isso ele precise ficar anos sendo torturado na China, acontece). Jack tortura quando acha necessário arrancar uma informação de alguém, ele também amputa braços alheios quando é pra salvar a vida de mais gente e até mesmo ajuda a explodir a agência em que trabalha. É claro que isso tudo tem um custo - é fora da lei, gente! - e que um monte de chefes acima dele fica contra seus métodos. Tudo bem: esse impasse entre o certo e o errado renderam as mais memoráveis falas:

"Esse é o problema com pessoas como você: querem resultados, mas nunca querem sujar as mãos. Vou precisar de uma serra". (nas cenas seguintes, Jack entrega a cabeça do cara e entrega a um criminoso para restabelecer contato)

"Sim, estou mentindo, mas você vai ter que confiar em mim" (e aí a esposa e a filha burríssimas se lascam todas)

"Eu sinto muito" (e atira na nuca de um cara de joelhos)

"Damn it!" (sem tradução que faça jus, mas que aparece pelo menos uma vez em cada).

Às favas com a realidade

Depois de (obrigatoriamente, gente!) assistir ao Dia 1 - crível e impecável, importante reforçar - você tem um arsenal de desastres para acompanhar. Com um pouco de paciência - e tempo - vale assistir: o Dia 2 conta com uma bomba atômica explodindo em Los Angeles, no Dia 3 um vírus que mata em horas está diretamente ligado com traficantes mexicanos, o Dia 4 Jack faz crossover com A Múmia: Tumba do Imperador Dragão, Dia 5 tem um dos inícios de temporada mais chocantes da série e uma chance de Terceira Guerra Mundial com... russos, Dia 6 é perigosíssimo e ruim pra caramba - ainda que trate do passado de Jack com seu pai -, o Dia 7 tem um reboot total, apresentando outros agentes e novos vilões antigos e o último dia, o 8, se passa em Nova York (e isso é o máximo de emoção que se pode oferecer, sério).

Não há muito de real aí, então se você procura por isso deveria assistir Lost ou Twin Peaks. Tô brincando. 24 serve àqueles que gostam de gastar seu tempo sem ligar para o reloginho no próprio pulso: são só explosões, vilões bacanas, ações impensáveis e aquela sensação boa de compensação quando Jack pega os bad guys reis da filhasdaputagem. Jack fez isso até em Sangala (risos), na África. Naquele episódio, um filme pra televisão chamado "24: Redemption" antecede a sétima temporada, Jack se encontra no meio de um golpe militar e precisa salvar um refém importantíssimo para os EUA. Loucura.

O importante é que, com tudo isso o que há de mirabolante, 24 parece nunca ter se levado realmente a sério: o mérito, aqui, é levar a história até as últimas consequências. Os próprios criadores da série, Joel Surnow e Robert Cochran, resumem bem o espírito da série: always bad, never bored. Com um roteiro que era escrito enquanto a série era transmitida, eles tinham lá boa consciência e bom termomêtro... 

24 vai para os cinemas do mundo todo no ano que vem, sem tempo real, sem uma boa história, só Jack Bauer e um vilão para dar mãos às burocracias que impedem Jack de degolar o atendente do McDonald's que cobrou o preço errado. Mal vejo a hora.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Flashback | A franquia Planeta dos Macados


Por Abrahão de Oliveira

Pouca gente sabe, mas a série de sucessos "Planeta dos Macacos", é baseada em um livro homônimo chamado 'La Planète des singes', escrito por Pierre Boulle e publicado no ano de 1963.

Cinco anos depois, em 1968, Franklin J. Schaffner dirigiu o primeiro "O Planeta dos Macacos", começando uma das séries mais curiosas, interessantes e surpreendentes da história do cinema.

A história começa quando Taylor (Charlton Heston), viaja ao ano de 3978 e é obrigado a fazer uma aterrisagem forçada em um planeta habitado por macacos superinteligentes. Nessa nova sociedade, os humanos são escravizados e parecem ser primitivos, já que nem o dom da fala eles têm, o que representa claramente uma crítica à censura estabelecida naqueles díficeis anos.

Toda essa situação é uma clara crítica social, mostrando que talvez nós humanos não sejamos o ápice da evolução com pensamos. Além disso, faz as pessoas imaginarem como seria uma sociedade em que nós seríamos escravizados e tomados como objeto de estudo.

Durante toda a trama do filme, Taylor acaba ficando dependente de dois chimpanzés.Um cientista, Cornelius (Roddy McDowall) e sua mulher, Zira (Kim Hunter), que acreditam que homens e macacos têm um ancestral comum.

Vale destacar que a cena final desse filme é uma das mais marcantes da história do cinema, quando Taylor enfim se dá conta que está na Terra do futuro e não em um outro planeta desconhecido. Esse momento também é visto como um claro manifesto anti-guerra fria.

O filme foi muito bem feito, para os padrões da época, e arrecadou incríveis U$$ 32,56 milhões de dólares ao redor do mundo.

A primeira continuação – "De volta ao Planeta dos Macacos"

Devido ao estrondoso sucesso feito pelo primeiro filme, em 1970 foi lançada uma sequência para o filme: De Volta ao Planeta dos Macacos, dirigido por Ted Post. Nessa nova história, outro astronauta americando Brent (James Franciscus), resolver ir atrás de Taylor, atravessando a barreira do tempo. Só que alguma coisa dá errado e ele acaba em uma cidade subterrânea, onde alguns humanos mutantes vivem adorando uma bomba atômica que pode destruir toda a Terra.

Nesse filme vale uma série de críticas. A primeira delas é com relação ao cenário e as modificações que foram feitas. Os cenários são bem pobres e a caracterização dos mutantes humanos são bem ruins. O herói Brent, é uma fraca imitação de Taylor. E nem mesmo a aparição de Heston durante o filme consegue salvar essa produção, a ausência de Cornelius também é muito sentida. As críticas sociais tão bem representadas no primeiro filme, acabam desaparecendo e o filme acaba sendo apenas uma luta contra monstros. O final acaba salvando a produção, embora seja um tanto quanto apocalíptico

O terceiro filme – "A Fuga do Planeta dos Macacos"

Como senão bastasse a estranha continuação do sucesso O Planeta dos Macacos, foi filmado um terceiro filme, para tentar arrumar as coisas coma história. A Fuga do Planeta dos Macacos, foi filmada por Don Taylor, em 1971. Sua história conta com a participação de Cornelius, Zira e Milo que voltam no tempo e vão parar em Los Angeles, no século 20. Eles conseguem voltar no tempo, devido a explosão atômica que afeta a nave de Taylor, que eles consertaram para poder fugir do planeta condenado. Logo que eles chegam toda sua avançada inteligência começa a ser estudada pelos seres humanos, que mais tarde os enxergam como uma verdadeira ameaça para nossa sociedade. O que representa mais uma crítica social, marca registrada dessa série, que tudo que é diferente, é perigoso.

Com o decorrer do filme eles são perseguidos pelo governo, que acredita que em um futuro próximo todo o mundo será dominado por chimpanzés. Apesar de toda a perseguição do filme, Zira consegue dar à luz a Caesar,antes de ser brutalmente assassinada com seu marido Cornelius. Trata-se de um importante fato, já que ele será o protagonista do próximo filme, A Conquista do Planeta dos Macacos.

O quarto episódio – "A Conquista do Planeta dos Macacos"

No ano de 1972, logo depois do lançamento do terceiro filme da série. Como já foi citado, esse filme tem como personagem principal, Caesar, filho de Zira e Cornelius. Durante a trama, fica explicado que um estranho vírus trazido por um astronauta dizimou toda a população de cães gatos do nosso planeta. A partir daí, os humanos começaram a adotar macacos como animais de estimação.

A surpresa do filme, fica por conta de que os macacos aparentam aprender as coisas muito rápido e, dessa forma, começam a ser treinados para serem escravos do ser humano. Caesar era o único macaco inteligente e começa a observar todo esse cenário. Como um herói de um povo injustiçado, ele começa a criar planos para fazer uma rebelião e libertar seus irmãos que estão sendo escravizados. Ele consegue sua missão e se torna o rei do planeta, com os macacos no poder e os seres humanos rebaixados para criaturas que apenas dividem o planeta com eles.

O desfecho original – "A Batalha Pelo Planeta dos Macacos"

Filmado em 1973, o filme conta os fatos dez anos depois da vitória símia sobre os seres humanos. Caesar é um governante justo e honesto. Ele optou por tratar com gentileza os seres humanos, fato não aprovado pelo seu principal general: o gorila Aldo. Ele acredita que os gorilas precisam se livrar dessa espécie que representam uma ameaça ao domínio símio, o que gera uma grande guerra civil entre os macacos. Tudo piora quando os seres humanos se juntam e começam a tentativa de retomar o planeta Terra.

Como curiosidade desse filme, vale destacar que aparecem alguns seres humanos afetados pela radiação que são semelhantes aos do segundo filme, que tem poderes mentais. Eles surgem durante uma expedição que vai em busca de dados sobre os pais de Caesar, encontrados no cenário do segundo filme, a New York destruída e desabitada.

O filme cria várias dúvidas interessantes e reflexivas para o especatador. Será que se Cornelius e Zira tivessem morrido, os macacos teriam conseguido evoluir até esse nível? Seria o filme um prelúdio disfraçado de sequência?

A franquia “termina” com uma cena repleta de lágrimas e a paz estabelecida entre os humanos e os macacos. O filme mostra que não são somente os humanos que são ruins, mas todas as criaturas têm seu lado mal. O que acontece é que os ruins não podem tomar o poder, para que as boas criaturas não sofram em suas mãos. Tudo isso é resolvido pelas mãos de Caesar, que consegue estabelecer a tão esperada paz.

Conclusão

A história original é muito bem feita e fundamentada. Diversas críticas são feitas às continuações. Embora alguns deles deixem a desejar, a história tem um bom fio condutor que leva o espectador a querer saber o que vai acontecer.

A saga é interessante pelas críticas sociais que faz. Preconceito, censura, domínio bélico e coisas do gênero são abordadas espetacularmente pelos personagens do filme. E mais que isso, mostra o possível “ódio” que outras espécies possam ter de nós humanos, por tudo que temos feito ao planeta Terra.

Os outros dois filmes – Tim Burton e "O Planeta dos Macacos: A Origem"

Passadas as continuações do original, O Planeta dos Macacos, dois filmes tentaram aproveitar o sucesso da franquia. Um deles foi dirigido por Tim Burton e contou com a participação de Mark Wahlberg. Lançado no ano de 2001, mereceu diversas críticas por fugir ao contexto original. Na trama, Leo Davidson (Wahlberg) sofre um acidente em uma espaçonave em 2029 e volta para um planeta primitivo dominado por macacos. Bem parecido com o primeiro filme. Ele começa a organizar os humanos para lutar contra os tiranos oprimidos, que têm os humanos como escravos. Filme mais de ação do que com história. Vale assistir pela diversão, já que conteúdo não é seu forte.

Lançado no fim do ano passado, O Planeta dos Macacos: a origem, dirigido por Rupert Wyatt, tenta explicar todos os acontecimentos da série. Tudo começa com a tentativa de curar o Alzheimer do pai de Will Rodman (James Franco), principal personagem do filme. Uma chimpanzé fêmea consegue resultados impressionantes, mas inesperadamente fica agressiva e foge da jaula. Morta, ela consegue dar a luz a Caesar, que é levado para casa por Will. O macaco cresce com uma inteligência incrível e começa a explorar o mundo exterior. Em uma dessas fugas, ataca um ser humano e é removido para um centro de primatas, a partir daí, começa ver como os macacos são criados e arma uma revolução. Seu objetivo no primeiro momento não é tomar o planeta, apenas alcançar a liberdade. O filme explica o começo da inteligência dos macacos. Traz uma qualidade considerável e os efeitos são muito bons, mas foge ainda do conceito de crítica social estabelecido pelos filmes antigos.

Resta saber se vão existir boas continuações, com as críticas sociais, ou a franquia vai parar por aí.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Flashback | As aventuras e polêmicas de Felicity


Por Rafael Pelvini

As brincadeiras com o chamado espaço-tempo feitas por J.J. Abrams – o rapaz aparentemente inofensivo por trás de seus óculos de acetato, que criou séries poderosas como “Fringe”, “Lost” e a mais recente (se inofensiva ou não, início de temporada dirá) “Alcatraz” – não se iniciaram com o boom que levou "Lost" ao rol de séries mais comentadas e importantes do novo século.

Há quase dez anos atrás - dois anos antes da première que derrubou o voo 815 da Oceanic Airlines - Abrams já experimentava ideias de viagem temporal com o final de sua série mais melancólica: "Felicity". A série estreou em 1998 e durou quatro temporadas, uma para cada ano de faculdade cursado pela jovem homônima ao título da série, interpretada pela agradável Keri Russel.

Por que (re)assistir "Felicity"? Olha, supondo que o J.J. Abrams é provavelmente o Midas mais bonito da cidade enquanto esse texto aqui é escrito, vale acompanhar uma de suas primeiras ideias, para dar um highlight naquilo que estaria protagonizando os próximos anos, séries e filmes de Abrams ou pagar de conhecedor pedante de séries antigas nas próximas rodas de conversa ou simplesmente ver uma série que ensina direitinho a sentir saudades de algo que não vivi ou evitava viver.

Inteirados ou não do que estou falando, lá vamos nós:

O ponto de partida

A jovem Felicity, de cabelos longos e muito cacheados (isso é de fato importante), largou todos os planos traçados por seus pais no dia da formatura do segundo grau. Ela ia pra Universidade de Stanford, cursar medicina, até que, no fim da formatura, ela enxerga a maior crush de sua vida: Ben Covington (o suspirante Scott Speedman).

"Gostaria que tivéssemos nos conhecido antes", escreve Ben após Felicity entregar seu anuário para ele, num gesto vacilante. "Pra que faculdade você vai?", "Nova York", anuncia Ben e, assim, na ingenuidade, Felicity muda todos os seus planos, contraria seus pais e vai para Nova York em busca de Ben. Acompanhe com pouca incredulidade o quão Felicity conheceu o meme Forever Alone ao chegar em Nova York e perceber que Ben não faz a menor ideia de quem ela é; restando à garota lidar com a própria escolha, fazer novos amigos e aprender a viver sozinha numa Nova York fria e desconhecida, distante daquela que veríamos em, sei lá, "Gossip Girl".

É interessante perceber como Felicity nunca está destacada entre a multidão de Nova York, apesar de parecer absolutamente deslocada, com seu cabelão, suas roupas mais largas, seu olhar perdido para os lados, a inocência ao interagir com gente muito diferente dela.

A graça de "Felicity" reside no fato de ser uma série sobre a transição adolescente-adulto, sobre estar na faculdade e ter dramas de vinte e poucos anos. Se estabelecendo como uma história de encontros e desencontros, mas com o primor que falta às séries de términos e reatas de namoro, "Felicity" apresenta um drama que permeou a série inteira - o que nos leva ao próximo tópico.

Ben/Felicity/Noel

De longe um dos triângulos amorosos mais bem trabalhados das séries e que segurou o coração da gente durante quatro temporadas sem jamais encher o saco.

Os sentimentos de Felicity são muito humanos, porque ela erra, repara, tenta consertar, falha, acerta. A moça que trocou de planos por causa de uma ilusão com um rapaz vai pro outro lado do país e conhece outro rapaz que arrasta um táxi amarelo com os dentes por ela, e... E aí? Ben é seu primeiro amor, algo selvagem e moleque, displicente a ela, enquanto Noel, mais velho e centrado, se demonstra apaixonadésimo por Felicity. Aí mora o principal motor da série: trabalhando como uma fábrica de epifanias de amor e de vida (abusando do slow motion), a série procura seguir a linha de raciocínio que faz Felicity pender entre um, outro e nenhum, guiando sua vida de acordo com isso.

Fitas K7

As fitas K7 que me refiro são a chave para as tais epifanias da série. Não raramente, os episódios de "Felicity" começam e terminam com a menina gravando sua voz numa fitinha que será enviada por correio (how retrô is that!) para sua amiga e mentora, Sally Reardon.

Servindo como uma boa saída para construção da história do episódio, a voz em off de Felicity - e as de Sally, que sempre enviava resposta - sempre davam um morninho gostoso no coração no fim dos episódios. Fato que essa dinâmica entre Felicity e a amiga só funcionaria como realidade em 1998, quando mp3, celulares com gravador e o peer-to-peer só engatinhavam no mundo (tanto que ao longo da série o artifício dessas correspondências foi deixado de lado), mas tudo bem: é uma série em que um PS2 era celebrado, ou um daqueles monitores/PCs coloridos e gigantes da Apple eram vistos como a enviados do futuro da tecnologia. Algumas coisas acabam naturalmente se... datando, e tudo bem.

Polêmicas e o cabelo de Felicity

Tá aí algo realmente datado, se querem minha opinião. Não o penteado em si, mas o que Felicity fez de uma temporada para outra: se livrou do longo e enrolado cabelo para adotar um corte bem curtinho (olha o antes e o depois aqui).

Presenteada já na primeira temporada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz para Keri Russel, a série tinha seus olhos voltados para a segunda temporada, que já em seu início tem essa mudança radical (sério, é essa a sensação) - e a isso foi atribuído a leve queda de audiência daquele ano (a mudança de horário e dia da semana nem foi comentada, claro).

O corte de cabelo de Felicity virou piadinha durante todo aquele ano, mas a série seguiu forte, tratando com delicadeza polêmicas menores na história: a troca de curso da menina Felicity, que larga medicina para seguir arte, a introdução permanente de personagem de Javier e de seu doce casamento e, claro, o episódio estranhíssimo em preto e branco com um lugar misterioso chamado "A Clínica" (tão misteriosa quanto "A Escotilha" mais famosa das séries de 2004, risos).

Viagem no tempo

E já que estamos na polêmica, "Felicity" trata, sim, de viagem no tempo - justamente nos quatro últimos episódios da série. Trata-se de spoiler, então não vou entregar muito: quando finalmente Felicity faz a escolha de Sofia - Ben ou Noel - ela recebe a chance de voltar no tempo e descobrir como seria se ficasse com o outro. A série dedica-se a isso, aproveitando para trazer personagens antigos de volta e mostrando como as coisas mudam se uma palha fica fora de lugar no passado (J.J. Abrams com as asinhas de fora, risos).

A volta no tempo de "Felicity" desagradou muito dos fãs mas não foi tão polêmica quanto o corte de seu cabelo. Risos (de novo). Ainda que esta aventura de Felicity tenha sido estranha, acabava evidenciando de vez o desejo de seu criador em trabalhar outros temas. A própria "Alias", da espiã que vivia causos malucos e cheiradíssimos, tinha Jennifer Garner no papel principal (a atriz participara de vários episódios de "Felicity") e era enxergada por Abrams como "Felicity se fosse uma série de espionagem". Então tá.

De modo que resumir uma série em um post só é igualzinho a usar caneta marca-texto numa leitura longa: o que vem primeiro aos olhos se destaca.